segunda-feira, 12 de agosto de 2013

O Diário de Anne Frank 2009 - Filme Completo


Por Ana Lucia Santana
Diário de Anne Frank foi composto pela então adolescente Anne Frank, no período que se estende de 1942 a 1º de agosto de 1944. Este poderia ser um diário escrito por qualquer garota de 13 anos, nos tempos atuais, com todas as inquietudes e preocupações de uma jovem, se ela não estivesse vivendo justamente em um dos contextos mais difíceis da história da Humanidade, a Segunda Guerra Mundial.
Ela tinha apenas 13 anos e, de repente, viu sua existência sofrer uma transformação radical. Subitamente Anne estava vivendo com sua família e outros judeus, companheiros da mesma sina, ocultos em Amsterdam, na Holanda, na época em que este país foi invadido pelos nazistas alemães.
Em palavras singelas e de fácil entendimento, a garota narra a rotina desta pequena comunidade durante o período em que seus integrantes permaneceram refugiados no porão do gabinete em que seu pai trabalhara, para onde o grupo se dirige ao tomar conhecimento do destino que lhes estaria reservado se fossem capturados pelas forças da Alemanha.
Neste recanto abrigam-se a família de Anne – a adolescente, os pais e a irmã -, e a do Senhor Van Daan – ele, a esposa e o filho Peter, que se torna o melhor amigo da garota, e por quem ela se encanta cada vez mais. A autora deste diário registra a vivência destas pessoas sob a ameaça constante da morte e sua visão pessoal sobre este terrível confronto bélico.
Anne tem a ideia de escrever um diário que pudesse realmente ser publicado após ouvir uma transmissão radiofônica que incentivava as pessoas a documentar os eventos ligados à guerra, pois este material teria, futuramente, um alto significado. Ela inscreve em seus escritos tudo o que se passa no cotidiano dos fugitivos, inclusive sua notória predileção pelo pai, que considerava amoroso e nobre, ao contrário da mãe, com quem a menina estava sempre em confronto.
Depois de tempos difíceis, oficiais da Gestapo descobrem o esconderijo, em 4 de agosto de 1944, prendem os refugiados e os conduzem para diversos campos de concentração. Neste mesmo dia o pai, Otto Heinrich Frank, recebe o diário da filha e, como é o único remanescente do período transcorrido como prisioneiro, luta pela publicação de seus textos, realizando finalmente o sonho de Anne. Com o auxílio da escritora Mirjam Pressler, ele alcança o seu objetivo e lança o diário em 1947.
Na primeira versão muitos trechos foram censurados pelo próprio pai, que tinha consciência do quanto seria controvertido, nesta época, divulgar os conflitos entre mãe e filha, bem como revelar aspectos da sexualidade emergente de Anne. Em edição posterior o diário foi publicado integralmente.
Anne morreu em pleno campo de concentração, em Bergen-Belsen, em fins de fevereiro de 1945. O Diário original está preservado no Instituto Holandês para a Documentação da Guerra. Os direitos autorais da obra de Anne estão reservados ao Fundo Anne Frank, localizado na Suíça, uma vez que Otto Frank faleceu em 1980.
Fontes:
http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_43217.html
http://pt.wikipedia.org/wiki/Diário_de_Anne_Frank

Eu Te Amo Renato

Na mesma época em que Somos Tão Jovens e Faroeste Caboclo estão em cartaz, tendo levado mais de três milhões de brasileiros aos cinemas, um novo filme explora a música e o universo do cantor Renato Russo: Eu Te Amo Renato. Trata-se da menor produção entre as três, feita com pouquíssimos recursos e concebida diretamente para exibição na Internet. Atualmente, o filme está programado no Rio Festival Gay de Cinema 2013.

Enquanto as duas grandes produções citadas acima foram acusadas de serem comerciais demais, formatadas para os gostos do grande público, este pequeno filme independente, que não deve nada a nenhum grande investidor, e que não precisa se preocupar com classificação etária, pode ser muito mais ousado, certo? Não exatamente. Embora fale sobre descobertas sexuais, amadurecimento e morte, o filme parece temer o choque, e conforta seu público com imagens um tanto convencionais.

A primeira metade do filme funciona como uma longa preliminar ao inevitável ménage à trois entre os protagonistas - dois garotos e uma garota. Sabe-se desde as primeiras cenas que eles têm atração uns pelos outros, e a câmera acompanha, sem a menor sutileza, cada olhar de desejo, cada mão encostando por acaso em um mamilo, cada braço roçando no outro. Quando finalmente a cena de sexo acontece, o filme perde sua vocação softcore para entrar na descoberta da (bi)sexualidade dos personagens.

No entanto, embora o trio esteja sozinho e nada se oponha à realização dos desejos - os amigos e a família estão distantes, os três estão em sítios belíssimos e isolados - a história não oferece nada além de uma sucessão de cenas de alegria coletiva, com os três belos jovens posando ora na entrada da casa (se beijando e sorrindo), ora sobre a grama (se beijando e sorrindo), ora dentro da piscina (se beijando e sorrindo), ora declamando letras de Renato Russo (se beijando e sorrindo).

Eu Te Amo Renato é sem dúvida o filme com maior quantidade de cenas de beijo no cinema. Tudo se resolve no beijo: Viu o namorado transando sozinho com o amigo? Nada de ciúme, beije os dois. Uma garçonete vê seu grande amor beijando outro? Ela corre e beija um terceiro. Acabou de fazer uma declaração de amor heroica e vergonhosa em público? Pegue a primeira pessoa que passar pela frente - não aquela para quem você se declarou - e beije-a. Lábios e línguas canalizam todos os desejos, frustrações e tristezas nessa história.

O diretor poderia pelo menos ter explorado de maneira ousada a intimidade entre os três, que passam metade do filme fazendo sexo. Shortbus e Nove Canções já trataram com bastante naturalidade a relação entre juventude, sexo e rock'n'roll, mas Fabiano Cafure prefere as ferramentas mais simples, típicas de telenovelas: quando seus personagens começam a se beijar e se despir, a câmera desliza para a parede, e a imagem corta para os pombinhos abraçados, na manhã do dia seguinte. Para um filme que pensa tanto em sexo, e tem tantas cenas grupais, evitar nudez e imagens do ato em si representa uma opção surpreendentemente conservadora.

Como na grande maioria dos filmes sobre relações amorosas a três, o elemento que destrói a harmonia do grupo não é tanto o ciúme, e sim o olhar externo. É com a descoberta local do amor poligâmico que surgem os problemas, e Eu Te Amo Renato envereda sem medo pelo melodrama, incluindo humilhações, brigas, cartas de amor secretas e duas mortes no mesmo dia, no mesmo momento. A trama acaba recorrendo a outra saída fácil: para solucionar os conflitos entre os três, simplesmente elimina-se, de maneira artificial e arbitrária, um dos elementos em jogo.

Por fim, Eu Te Amo Renato fracassa pelo abismo que separa sua aparência cool, libertária e libertina, e sua realização quadrada, pudica e cheia de fórmulas. Os atores são razoavelmente competentes em seus papéis, e a produção, apesar de pequena, sabe usar da melhor maneira os seus recursos. Cafure também consegue tirar proveito da leveza de sua câmera digital, aproveitando para captar alguns momentos de naturalidade entre os atores. Mas infelizmente uma oportunidade tão boa para se retratar algo ousado, digno das letras de Renato Russo, se transformou em uma tímida homenagem adolescente e envergonhada ao universo do cantor.

Éden

A primeira cena já provoca um certo estranhamento: Leandra Leal deitada dentro de uma piscina, rodeada por outras piscinas parcialmente cobertas por panos pretos. A imagem em si instiga pelo diferente e assim será durante boa parte do filme. Afinal de contas, Éden segue o estilo pessoal do diretor Bruno Safadi, onde a narrativa é apresentada através de elipses numa trama não-linear repleta de simbolismos, na qual a história não é tão importante quanto as imagens e os sons apresentados ao espectador. Trata-se de um filme sensorial, onde o sentido tem privilégio frente à perfeita compreensão do que acontece na telona.

Ainda assim, Éden traz uma história com elementos bem interessantes. Especialmente a figura do pastor evangélico, um personagem que surge com uma frequência cada vez maior no cinema nacional justamente devido à expansão da religião junto ao povo brasileiro. Ao mesmo tempo em que a interpretação de João Miguel impressiona pela entrega ao personagem, com pregações entusiasmadas às pessoas à sua volta, ela é apenas o ponto de partida para a representação de todo um universo em torno dos cultos evangélicos. É maravilhosa a sequência em que Karine, personagem de Leandra Leal, é levada à Igreja Evangélica do Éden. Em meio aos dizeres empolgados do pastor Naldo e de todo um entusiasmo das pessoas presentes no local, em especial o crente interpretado por Júlio Andrade, o olhar de incredulidade da atriz diante do show que ocorre naquele instante diz tudo, sem pronunciar uma palavra sequer. É, ao mesmo tempo, a devoção extrema à religião e a desconfiança sobre esta mesma devoção, dois universos antagônicos representados com exatidão.

O olhar de Leandra Leal, por sinal, é um dos grandes destaques do filme. É através dele que a atriz compõe as diferentes facetas de sua personagem, seja ela de medo, desamparo ou até mesmo sedução. Sua personagem, Karine, na verdade está desesperada após o pai da criança que espera ser assassinado, restando apenas um mês para o término da gestação. Sua reação, gravitando em torno do pastor Naldo, nada mais é do que desespero absoluto. Ela não acredita nele, mas ainda assim o segue por não ver outra opção.

Infelizmente, Éden não consegue manter o pique inicial ao longo de todo o longa-metragem, apesar de ter apenas 73 minutos. O impacto inicial é em muito diluído devido à trama envolvendo a religião perder força, apesar dela ressaltar certas atitudes, positivas e negativas, do pastor Naldo. Os próprios personagens de João Miguel e Júlio Andrade são pouco desenvolvidos, fazendo com que os personagens se destaquem mais pela precisa caracterização dos atores do que propriamente sua participação na história. Ainda assim, Éden mantém o interesse graças às opções do diretor por sequências um tanto quanto enigmáticas, não apenas pelos simbolismos retratados mas também pela trilha sonora angustiante, baseada no som emitido por baleias. Bom filme, que faz do estranhamento e das belas atuações seus trunfos para conquistar quem tem ao menos algum interesse pelo cinema que foge (bastante) do estilo hollywoodiano de se contar uma história.http://www.adorocinema.com/filmes/filme-213231/criticas-adorocinema/

sábado, 10 de agosto de 2013

Graupel Poetry

Graupel Poetry (algo como “poesia do floco de neve”, em tradução literal) começa como um drama realista: um casal gay acorda durante a noite, por causa dos pesadelos de um deles. O rapaz se levanta e pega um remédio, enquanto a câmera imóvel mostra a aspirina sendo dissolvida na água, durante cerca de dois minutos. O rosto do personagem está cortado pelo enquadramento. Parece que estamos no território comum do cinema de autor, com planos lentos, contemplativos, luzes naturais e cenas banais do cotidiano.

Mas logo o filme toma rumos inesperados. A imagem começa a tremer, como se existisse uma interferência magnética (alguns espectadores chiaram na sala, acreditando em um erro de projeção), o personagem passa a ter sonhos em que é perseguido. Os dois homens entram em um estranho bar silencioso, com uma diva estranha ao meio (imagem ao lado), que sufoca uma cliente do bar com o simples poder do olhar.

O diretor já tinha avisado, e mesmo incluído na sinopse oficial de seu filme, que Graupel Poetry era inspirado emDavid Lynch. No entanto, mais do que uma inspiração, esta obra lembra uma cópia de baixíssimo orçamento deCidade dos Sonhos. Todos os elementos e metáforas estão presentes: as caixas e cores simbólicas, os personagens que trocam de papel a certa altura da narrativa, assassinato misterioso e mesmo o famoso Clube Silêncio, em versão chinesa, com lanternas de dragões na entrada, planos fechados e muito gelo seco para encobrir o fato de que o local não tem uma direção de arte tão caprichada quanto no filme de Lynch.

Mas é justamente aí que se encontra o grande problema da obra chinesa: ela tenta resumir sua referência, sua paixão pelos filmes sombrios e eróticos, ao jogo nonsense e à narrativa fragmentada. David Lynch não se tornou famoso e respeitado apenas pela atmosfera sugestiva de suas tramas, e sim por um complexo uso de sons distorcidos, direção de arte onírica, enquadramentos precisos e referências metalinguísticas. Graupel Poetry, sem os recursos nem a reflexão necessários, passa apenas por uma história confusa, muito mal agenciada.

Assim, não se sabe qual dos personagens (ambos trabalham como atores) é de fato convidado para o filme de sucesso, se Ming conhece ou não a garota assassinada, se Ming e Leung são de fato irmãos ou não. Cada cena aparece para negar o sentido da cena precedente. Os espectadores do Rio Festival Gay de Cinema 2013 saíram confusos da sala, perguntando se tinham de fato entendido o que aconteceu. Ninguém possuía uma resposta milagrosa que conferisse coerência ao conjunto.

De qualquer modo, essa não parecia ser a intenção do diretor Bruce X. Saxway, que queria confundir, perturbar os sentidos, e nesse sentido teve sucesso. Talvez ele esteja contente com o resultado. Mas com seu prazer malicioso e auto congratulatório, o diretor se esqueceu de dizer algo sobre seu tema, esqueceu que o público também pode querer desfrutar da história – e não apenas ser manipulado em um jogo de faz de conta.http://www.adorocinema.com/filmes/filme-221672/criticas-adorocinema/

One Zero One - The Story of Cybersissy & Baybjane

Este documentário gira em torno de dois personagens: Antoine, um artista com cerca de quarenta anos, obeso e vítima de graves crises psicóticas, e Mourad, um artista de origem magrebina, vítima de nanismo, sem um olho, com deformidades nos dedos, quadril e outras partes do corpo. Juntos, eles fazem performances grotescas e hilárias como drag queens em casas noturnas.

Seria muito fácil imaginar estas duas figuras atípicas tratadas como atrações de circo, no melhor estilo tele-realidade. Pense nos closes que a câmera poderia fazer em nos dedos disformes, nos depoimentos lacrimejantes de um membro da família ou nas imagens das crises psicóticas de Antoine. Seria impressionante, catártico, emotivo, mas também desrespeitoso com estes dois indivíduos. Felizmente, One Zero One – The Story of Cibersissy and Baybjane está muito mais interessado em retratá-los como artistas.

Ao invés de fingir que esses dois seres humanos são idênticos aos outros (basta colocá-los ao lado dos rapazes musculosos das casas noturnas para ver que não são), o diretor Tim Lienhard prefere examinar o que essa diferença traz em suas trajetórias artísticas. O procedimento funciona como uma ideologia de discriminação positiva, tão em voga nas democracias europeias: ao invés de fingir que não está prestando atenção à diferença – algo que muitos pais ensinam às crianças, como sinal de respeito – o diretor observa-as com atenção e distanciamento, para saber como melhor lidar com elas. A discriminação positiva observa a diferença com atenção não para caricaturá-la, e sim compreendê-la.

Contribui muito ao projeto o fato de Antoine e Mourad serem sujeitos ativos do filme, com voz própria e uma surpreendente lucidez sobre suas condições físicas e psicológicas. “As pessoas adoram ficar perto de mim, porque elas se sentem belas ao lado de um homem feio”, diz Antoine. “As pessoas sempre olharam para mim, a vida inteira. Não posso fingir ser normal, não dá. Por isso decidi usar meu corpo a meu favor. Eu sou uma escultura”, diz Mourad. Assim como os entrevistados, o cineasta evita as cenas dos bastidores (nada sobre a vida amorosa, pouca informação sobre a família) para se concentrar no essencial: as performances dos dois.

Os shows de Cibersissy (Antoine) e BayBjane (Mourad) mostrados no documentário são interessantíssimos, porque encenados dentro de castelos clássicos, brancos, iluminados. Os números com vaginas pegando fogo, globos oculares literalmente saltando das órbitas e tecidos ocupando toda a cabeça entram em contraponto com a beleza convencional do mármore, das colunas e escadas em estilo tradicional. É como assistir à apresentação de uma banda punk na Capela Sistina: o choque funciona para ressaltar as diferenças, e os valores, do artista e do local que o acolhe.

Por fim, One Zero One – The Story of Cibersissy e BayBjane não mostra a trajetória politicamente correta de “dois deficientes que superaram os obstáculos e se integraram socialmente”, e sim de dois deficientes que decidiram usar suas deficiências como expressão artística e identitária. Esta também é uma forma de viver, e celebrar, a diferença.

Naked As We Came

Naked As We Came faz parte dos melodramas que acreditam que o ser humano só é profundo e interessante quando sofre. Esta história traz câncer, morte, maus tratos na infância, paternidade negada, problemas entre irmãos, divórcio, frustração no trabalho, talentos artísticos reprimidos, segredos, mentiras e todos os tipos de rancores. O roteiro coloca quatro personagens sofridos dentro da mesma casa e observa o inevitável confronto entre eles.

Os personagens em questão são a mãe, dois filhos e o ajudante dela, que mora na mesma casa. Todos são definidos nos diálogos por seus problemas: a mãe (Lué McWilliams) é tirânica e pouco amorosa, a filha Laura (Karmine Alers) é intolerante e implicante, o filho Elliot (Ryan Vigilant) nunca consegue levar os planos adiante, e o ajudante Ted (Benjamin Weaver) tem traumas com o ex-namorado. Eles se unem pela primeira vez por um motivo nobre (a mãe está morrendo), e a história faz malabarismos para que todos os conflitos aconteçam em poucos dias: o filho Elliot e Ted transam, a mãe pede desculpas aos filhos, Laura pensa se deveria voltar com seu marido, e todos brigam, se reconciliam, brigam mais e se reconciliam mais um pouco.

O ritmo intenso e condensado de Naked As We Came mostra a intenção do diretor Richard LeMay em fazer não apenas uma trama comum, e sim uma grande história ampla, universal, com direito a todos os valores familiares cristãos. Se não fosse pela aceitação bastante natural da homossexualidade – é a própria mãe, veja só, que empurra o filho para a cama de Ted – este filme passaria por uma fábula religiosa de amor ao próximo.

Mesmo assim, a produção é competente, com uma direção de arte simples e eficaz, além de planos que exploram com inteligência a geografia da casa. Os atores não parecem ter longa experiência no cinema, mas felizmente preferem as atuações contidas ao invés dos gestos exagerados – algo que poderia transformar o tom catártico do filme em uma paródia involuntária.

Saindo da exibição de Naked As We Came no Rio Festival Gay de Cinema 2013, a maioria dos espectadores parecia comovida e satisfeita com a sessão. Alguns comentários ouvidos fora da sala indicam que este drama conseguiu representar um escapismo eficaz, uma boa recompensa emocional. “Chorei muito. Gosto de filmes assim”, disse um espectador. Com um teor operístico envolvido em embalagem popular, acessível e gay, o filme oferece, para quem quiser, um curso intensivo de valores morais.http://www.adorocinema.com/filmes/filme-221670/criticas-adorocinema/

A Volta da Pauliceia Desvairada

Ao colocar sua câmera nas casas noturnas e festas gays de São Paulo, o cineasta Lufe Steffen adota um olhar de sociólogo. Ele tenta compreender porque gays e lésbicas saem à noite, que roupas usam, que expressões utilizam, quanto gastam, o que esperam do amor, do sexo, e mesmo da política e religião. O filme disseca o comportamento dessas pessoas como se tentasse compreender o funcionamento de ratos de laboratório.

Um grande mérito de A Volta da Pauliceia Desvairadaencontra-se na abordagem do cineasta. Não existem depoimentos refletidos, feitos com grande aparato técnico. Pelo contrário, Steffen filma as pessoas dentro das baladas, ou na fila das casas noturnas, a maioria delas visivelmente alcoolizada, e por isso mesmo livre para dizer o que pensar. O resultado é de uma espontaneidade muito bem-vinda no gênero. O documentário capta as hesitações e atos falhos de pessoas pouco preocupadas em impressionar ou passar uma boa imagem de si mesmas.

As dezenas de impressões pessoais representam os mais variados grupos de moradores gays de São Paulo: menores de idade, jovens adultos, pessoas de mais de 60 anos, homens, mulheres, travestis, transexuais, drag queens, DJs, donos de bares e discotecas. Todos são ouvidos com o mesmo respeito. Preocupado com a amplitude e imparcialidade de seu estudo de caso, o diretor concede a todas as casas noturnas um tempo equivalente, sem poder ser acusado de favorecer uma ou outra.

O resultado é o retrato de um tempo de incertezas. A música das festas ainda copia e recicla os anos 1980; vários rapazes gays sonham com um relacionamento sério, mas acham que todos os outros só querem sexo; alguns afirmam que se vestem com um estilo único, mas são idênticos aos colegas ao lado, que raciocinam da mesma maneira. O ato de sair à noite funciona como escapismo, e por isso mesmo é algo pouco raciocinado. Assim, o documentário desperta interesse por levar um olhar lógico a um prazer irrefletido.

O símbolo maior da fluidez nas relações encontra-se na tecnologia. Depois de citar rapidamente o consumo de drogas e álcool, o diretor vê nos smartphones, no Grindr, no Facebook e no Twitter uma forma de comunicação estranha, realmente nova e representativa da juventude atual. Existem diversas cenas com pessoas twittando enquanto dançam, ou dando um check-in nas festas em que estão, enquanto procuram parceiros pelo Grindr. “Ounderground é o novo pop”, “O bear é o novo gay” e outras fórmulas do tipo aparecem para tentar apreender uma época tão afeita às reciclagens, paródias, releituras e mashups.

No final, sem julgamentos nem homenagens, A Volta da Pauliceia Desvairada atribui um olhar muito interessado e interessante à sua época. Os letreiros iniciais já avisam que a cena gay paulistana muda rapidamente, portanto o filme deve ser compreendido apenas como uma representação de sua época. É esta a consciência e qualidade do documentário de Lufe Steffen: congelar em imagens um período de mutação, um tempo fugidio e incerto.

A Cidade é uma Só?

"A cidade é uma só?" é bem mais do que o título deste bom documentário dirigido por Adirley Queirós. É um questionamento que sintetiza o longa e vai de encontro a uma jingle divulgada no início dos anos 70 em Brasília. 

Poster - FILM : 202665Na época, ao verificar a formação de barracos nos arredores da cidade, o governo decidiu por remover tais moradores e realocá-los nas conhecidas cidades satélites. O filme foca sua atenção na Ceilândia, seguindo cinco personagens principais, que vivem no local marcado pela desigualdade e pela especulação imobiliária.

Alguns deles ainda sonham em receber uma indenização pelo deslocamento da década de 70, mas a maioria tenta levar sua vida normalmente. Eles foram tirados de Brasília por causa de loteamentos ilegais, mas a realidade é que eles nunca passaram a ser legais depois disso, afinal passaram a viver em habitações perpetuamente provisórias e numa realidade de muita desigualdade.

A Cidade é uma Só? começa mostrando o plano piloto da Capital Federal e passa seus 73 minutos reforçando o paradoxo que é a cidade responsável por tomar conta do Brasil não conseguir enxergar à sua volta. O diretor Adirley Queirós ainda consegue oferecer discursos políticos tanto através de suas imagens quanto através de seus personagens.

Temos personagens que vivem de comprar e vender lotes e outros que sonham em mudar para Brasília. O mais interessante, no entanto, é Dildu, um político independente que decide se candidatar a deputado distrital, contando com um ex-rapper como marqueteiro. Além de momentos divertidos por natureza, a campanha de Dildu gera uma análise muito interessante sobre a forma de financiar campanha na atualidade.

O longa mostra o quão cruel é a competição política entre um cara comum e uma pessoa com todo um partido por trás. Isso está presente na tela de forma muito elegante e, até mesmo, triste. A cena em que vemos Dildu batendo de cara com uma mega convenção de outro candidato é desoladora.

Com um final em aberto, que representa claramente, a situação dos moradores da Ceilândia, A Cidade é uma Só?é um documentário muito interessante e que atinge bem seus objetivos, além de informar para quem não está tão próximo daquela realidade o que acontece a alguns quilômetros da capital.

A bela que dorme

A Bela Que Dorme tenta combinar estilos de cinema muito diferentes. O primeiro deles é a biografia documental: para contar o caso polêmico de Eluana Englaro, jovem italiana que ficou em coma vegetativo durante 17 anos até ter seus aparelhos desligados, o filme decide se colar aos fatos históricos, mantendo o nome real da garota e reproduzindo informações verídicas. Ao mesmo tempo, esta é uma obra de ficção, com personagens criados no intuito de relatar pontos de vista diferentes sobre a morte voluntária – seja ela a eutanásia, o suicídio ou o suicídio assistido.

A Bela que Dorme - FotoPor esta razão, só aparecem em tela pessoas em crise com o tema: um senador liberal (Toni Servillo) é forçado pelo partido a votar contra a eutanásia, a filha dele, uma garota católica (Alba Rohrwacher), luta contra a morte assistida, uma mulher viciada em drogas (Maya Sansa) tenta cometer suicídio, uma mãe religiosa (Isabelle Huppert) espera que um milagre tire sua filha adolescente do coma. Com esta estrutura, porém, o filme abandona qualquer pretensão de realidade. Ao invés de registrar um painel representativo da sociedade, a câmera está interessada em ouvir unicamente sujeitos envolvidos no caso – como faria, por exemplo, um repórter de telejornal.

Afastando-se ainda mais da realidade, A Bela Que Dorme começa a entrelaçar essas histórias de maneira improvável: o senador esconde em seu passado um ato de eutanásia, a garota religiosa presenciou a eutanásia da própria mãe, e esta mesma jovem, quando está tomando café em um bar, é atacada por um garoto descontrolado, pró-eutanásia. Quem vem ajudá-la (adivinha?) é um belo rapaz de esquerda, aberto a novas ideias. Os dois apaixonam-se à primeira vista. A sucessão de coincidências cria um tom de fábula, sustentado pelas cores sombrias da fotografia, pelos planos de pés suspensos no ar, fumaças cobrindo cômodos inteiros ou ainda projeções de passeatas sobre os rostos dos personagens.

Transita-se entre o sonho e a realidade, entre o barroco e o naturalista, e principalmente entre a noção de acaso (a morte pode chegar a qualquer um, a qualquer hora) e a noção de destino preconcebido (todos esses personagens se cruzam durante poucos dias, nos momentos finais da vida de Eluana). Por sua indefinição, é difícil julgar o sucesso ou fracasso deste projeto. A Bela Que Dorme tem uma beleza plástica invejável, que pode ser considerada adequada, caso o filme seja visto como uma obra poética, ou excessiva, para quem espera um relato fatual da história de Eluana. De qualquer modo, mesmo essas belezas tendem ao esvaziamento quando começam a se repetir entre os episódios: são muitos lençóis ao vento, dezenas de portas abrindo e fechando, dezenas de personagens observando a si próprios no espelho.

A Bela que Dorme - FotoPode-se admirar o fato que, diante de um tema tão complexo, o diretor Marco Bellocchio não tenha defendido nenhuma causa. Mas também, pudera: esta história não gira em torno de diferentes posturas sobre a eutanásia, e sim em torno de diferentes personagens passando por um momento extremo de suas vidas. Pouco importa o que cada um deles pensa sobre o caso Eluana, já que estão excessivamente imersos no tema, representando apenas a si mesmos. Existe emoção demais: todos os personagens choram, gritam, debatem-se, e por isso são respeitados pela mesma razão que se respeita uma pessoa em período de luto – as dores ainda estão vivas demais para se propor um olhar calmo e lógico.

Deste modo, a história evita os julgamentos, preferindo a observação. Os atores, de maneira geral, atribuem bastante humanismo aos tipos que interpretam (Toni Servillo e Alba Rohrwacher são excelentes), mas não conseguem superar a posição neutra do diretor. Bellocchio tem muito a mostrar, mas parece não saber exatamente o que dizer sobre o seu tema. Afinal, pode-se fazer um belo documentário, um belo drama ou uma bela fábula surrealista sobre a eutanásia, mas os três projetos não parecem caber em um mesmo filme.

Juan dos mortos

Ao se pensar no cinema realizado em Cuba, é mais fácil se lembrar de produções marcantes nos anos 60 e 70, como Memórias do Subdesenvolvimento e Lucia, do que em longas recentes. As dificuldades econômicas enfrentadas pelo país reduziram drasticamente as produções realizadas por lá, que ainda assim possui uma conceituada faculdade de cinema. São poucos os filmes produzidos em Cuba e menores ainda os que chegam ao Brasil. Ainda assim, em 2011, foi realizado um filme em ganhou destaque em festivais por todo mundo, incluindo o Festival do Rio. Trata-se de Juan dos Mortos.

Foto - FILM - Juan de los Muertos : 182105Cerca de dois anos depois, o longa chega aos cinemas brasileiros e merece ser conferido pelos fãs de filmes de zumbi. A coprodução Cuba-Espanha gira em torno de um grupo de estranhos amigos que têm que lidar com o fato de todos a sua volta terem se tornado zumbis, embora a mídia ainda os trate como dissidentes financiados pelo governo dos Estados Unidos.

A ideia é ótima e a execução não deixa a peteca cair. Juan é o líder do grupo, que ainda arruma uma forma de ganhar dinheiro diante da tragédia. "Matamos seus entes queridos", anunciam.

Como muitas grandes comédias, o Juan de los Muertos (no original) investe no absurdo para produzir críticas não só contra o sistema de governo do país, mas também contra os Estados Unidos e o cinema hollywoodiano. Não é coincidência que o primeiro zumbi visto no filme seja um prisioneiro de Guantánamo e nem que um cowboy (ou quase isso) surja em cena para morrer da forma mais idiota possível.

Foto - FILM - Juan de los Muertos : 182105Escrito e dirigido pelo argentino Alejandro Brugués, o filme valoriza o caráter de sobrevivente do povo cubano, que supera muitas dificuldades. Tem referências claras aTodo Mundo Quase Morto, usando armas estilizadas como remos, tchaco e taco de basebol como instrumentos para matar zumbis. Mas não se trata de um longa que se esgota na referência, brincando ainda com filmes de vampiro e com O Exterminador do Futuro("Venha comigo se quiser viver").

O filme não se julga esperto de mais e nem perde tempo em debates políticos, mas não deixa de dar suas indiretas, algumas delas bem óbvias, por sinal. As ruas de Havana viram cenário de filme de horror, com muito sangue e corpos pelo chão. Tal ambiente contrasta com painéis e pinturas que destacam frases como "pátria ou morte", "revolução e morte" e "Havana livre". Brinca com os russos, através de crítica aos carros Ladas, e com os americanos, com o protagonista dizendo que só vai para Miami se não tiver mais jeito. Para ele, só algo pior que uma revolução zumbi justificaria entrar num bote para a América.

Estrelado por Alexis Díaz de VillegasJorge MolinaAndrea Duro e Andros PerugorríaJuan dos Mortos é inteligente, divertido e muito bem feito. É claro que possui um visual trash e cenas pra lá de bizarras, mas tudo bem inserido em produções do gênero. No final, é difícil tirar o sorriso do rosto, reforçado por uma versão roqueira de "My Way", clássico da música imortalizado por Frank Sinatra.

Chamada a cobrar

No drama argentino A Mulher Sem Cabeça, uma mãe de classe média-alta se descuidava ao volante e acabava atropelando algo, que poderia ser uma pessoa, um animal ou algum objeto na pista. Sem ter coragem de voltar ao local do incidente, ela passava seus dias remoendo a possibilidade de ter cometido um assassinato. Clarinha, em Chamada a Cobrar, precisa de menos do que isso para perder a cabeça: basta uma ligação anônima, sugerindo que sua filha foi sequestrada, para que ela pegue o carro e saia dirigindo durante doze horas, seguindo as ordens mais absurdas.

Foto - FILM : 213756Desde o início, está claro que a ligação representa um falso sequestro: os bandidos mudam de ideia sobre as instruções, nunca fornecem provas de terem a filha de Clarinha com eles, tampouco pedem resgate. Mas de fato, eles nem precisariam de tanto esforço: em momento algum Clarinha demonstra um mínimo de racionalidade. Ela não tenta ligar para a filha, nem para a polícia, nem conversar com quem quer que seja pelo caminho. Esta mulher de meia-idade age apenas com a emoção, acreditando em tudo que ouve.

Isso é possível porque a protagonista é descrita como uma pessoa rica e ingênua. Com a duração enxutíssima de 72 minutos (o longa foi expandido a partir de um curta-metragem), a apresentação de Clarinha resume-se ao mínimo necessário: ela mora em uma casa luxuosa, tem jardineiros, toma café da manhã com castiçais à mesa e pendura um terço no vidro retrovisor do carro. A câmera insiste em focar neste terço, enquanto Clarinha grita “Pelo amor de Deus!” a cada trinta segundos, indicando que o roteiro provavelmente associa a credulidade no caso da fraude à credulidade religiosa.

De qualquer modo, esta personagem é de uma imbecilidade atroz. Quando a voz do outro lado do telefone faz alguma referência à filha supostamente sequestrada, a mãe grita: “Dá uma maçã para ela, por favor! Ela gosta de maçã!”, como faria a um animal de estimação. A representação grotesca da riqueza (Clarinha tem um vibrador dourado em casa) completa-se com a representação grotesca da pobreza. O bandido corresponde à ideia mais estereotipada do favelado agressivo, enquanto a primeira imagem da cadeia recorre ao fetichismo dos filmes criminais, com a câmera observando os braços através das grades e a fumaça de um cigarro saindo da cela.

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Assim se configura Chamada a Cobrar: um embate entre a estupidez dos ricos e a astúcia dos pobres. O grupo rico é representado por mulheres histéricas (o momento com as três irmãs juntas beira o insuportável), o grupo pobre é representado por homens perversos, fazendo um teatrinho da pior qualidade. Para ajudar no festival de caricaturas, a mulher rica vem de São Paulo, enquanto o favelado representa o Rio de Janeiro. Planos aéreos servem para opor as duas cidades - e adivinha? O lado carioca é mostrado com crianças pobres e praia, o lado paulista é mostrado como um mar de arranha-céus.

De certo modo, o elemento mais grave em Chamada a Cobrar é o fato de a diretora Anna Muylaert levar a sério a sua personagem, acreditando que a situação poderia realmente se desenvolver dessa maneira. A cineasta é conhecida por incluir elementos surrealistas em suas obras (vide o cavalo de Durval Discos), mas desta vez o surrealismo nunca é assumido como tal. Talvez cenas com bichos e pelúcia e armas de brinquedo pudessem levar o filme para a inverossimilhança assumida, mas o roteiro acredita que está realizando uma mistura realista entre drama e suspense. Assim, Muylaert usa câmeras tremidas e trilha sonora, como se estivesse gravando um filme policial hollywoodiano.

Desta vez, infelizmente, ela não tem o distanciamento crítico que tinha nos bons Durval Discos e É Proibido Fumar.Bete Dorgam ainda tenta conferir alguma credibilidade à personagem, mas a história permite apenas que ela atue na máxima potência, sempre em desespero. A história ainda ameaça enveredar pela crítica social, com discussões entre bandido e vítima sobre salários e direitos dos pobres, condições hospitalares e outras mazelas da desigualdade social. Mas a possibilidade de um retrato da luta de classes transforma-se em humor involuntário quando Clarinha passa a chamar o suposto agressor de sua filha de “querido”, “meu filho” (seria o instinto materno aflorado?), acreditando até em uma simulação tosca de sua filha chorando ao telefone. Talvez o roteiro quisesse fazer de Clarinha um símbolo da classe A, mas o perfil patológico e tragicômico dessa mulher dificilmente representaria qualquer outra pessoa.

Anna Muylaert sempre desenvolveu sua carreira com a mistura de gêneros, entre comédia, suspense e drama. Desta vez, no entanto, ela leva às telas um roteiro precário, além de contar com uma produção muito fraca, perceptível pela caracterização risível do delegado, ou pelos recursos simplórios da direção de arte ao revestir um orelhão.Chamada a Cobrar acaba sendo um filme amador, tão incoerente e ingênuo quanto Clarinha.

Renoir

Existe uma curiosa tendência no cinema atual que tem investido não propriamente em cinebiografias, mas em momentos específicos da vida de celebridades. É o caso de Sete Dias com Marilyn (período em que a atriz atuava em O Príncipe Encantado), Hitchcock (bastidores de Psicose), Lincoln (a negociação em torno do fim da escravidão nos Estados Unidos) e o telefilme A Garota (o relacionamento de Alfred Hitchcock com a atriz Tippi Hedren). O drama francês Renoir segue nesta linha ao não focar nem a vida do pintor Pierre-Auguste Renoir nem a do cineasta Jean Renoir, seu filho. É o elo entre os dois, com o pintor já consagrado e o nascimento do cineasta, o grande tema deste filme que explora muito os diálogos e o lado técnico para mostrar um pouco de quem foi cada um deles.

Foto - FILM - Renoir : 203955Logo de início o filme se destaca pela fotografia, nitidamente pensada de forma a ressaltar na telona o estilo de pintura do próprio Renoir. O uso de cores vivas e alegres, refletidas em muitas paisagens naturais onde seria possível brincar com as variações de luminosidade, tem dupla função: ao mesmo tempo que produz um efeito belíssimo, oferece ao espectador dicas de como era o mundo visto pelo pintor. Lá pelas tantas, numa conversa com o filho, surge outra dica sobre seu estilo quando o próprio Renoir diz que se recusa a usar o preto em seus quadros, já que “prefere ver o mundo agradável e alegre”. Assim é o estilo impressionista, onde a suavidade reina e provoca uma sensação de bem estar ao espectador.

Já pelo lado do cineasta, é interessante perceber a transição entre o jovem entusiasta em defender a pátria na Primeira Guerra Mundial naquele que viria a ser um dos maiores diretores europeus de todos os tempos, responsável por clássicos como A Grande Ilusão e A Regra do Jogo. Entretanto, não espere ver os bastidores de quaisquer destas produções ou até mesmo um trabalho intenso de Jean Renoir no meio cinematográfico. Renoir, o filme, busca o nascimento do interesse pelo cinema, passando pela vida ligada às artes devido ao convívio com o próprio pai. Este relacionamento, por sinal, é outro lado bastante interessante do filme. Por mais que Pierre-Auguste (Michel Bouquet) e Jean (Vincent Rottiers) não sejam muito próximos, existe um sentimento entre eles que se manifesta muito mais através do respeito e da troca reveladora de olhares, especialmente após Jean conhecer a ambiciosa Andrée (Christa Theret). É ela, por sinal, o fio da meada do lado dramatúrgico do filme, servindo de elo de ligação entre o trabalho do pai e o interesse artístico do filho.

Foto - FILM - Renoir : 203955Valorizando bem mais o lado estético do que propriamente uma história a ser contada, Renoir é um filme para ser apreciado sob o ponto de vista artístico. Quem conhece um pouco do trabalho do pintor terá a chance de reconhecer em cena diversos elementos de sua obra, sejam citações e representações de algumas de suas pinturas mais conhecidas ou até brincadeiras relacionadas ao seu estilo, como as feitas por Jean e Andrée sobre o modo como eles eram retratados nos quadros. Para quem nada sabe sobre Renoir, seja o pai ou o filho, é uma boa oportunidade de conhecer um pouco melhor as características destes dois gênios da arte. Bom filme, que conta com um elenco coeso mas que tem como grande destaque o trabalho do diretor Gilles Bourdos, pelo cuidado na transposição do estilo de Renoir, o pintor, para ilustrar o filme.