Este documentário gira em torno de dois personagens: Antoine, um artista com cerca de quarenta anos, obeso e vítima de graves crises psicóticas, e Mourad, um artista de origem magrebina, vítima de nanismo, sem um olho, com deformidades nos dedos, quadril e outras partes do corpo. Juntos, eles fazem performances grotescas e hilárias como drag queens em casas noturnas.
Ao invés de fingir que esses dois seres humanos são idênticos aos outros (basta colocá-los ao lado dos rapazes musculosos das casas noturnas para ver que não são), o diretor Tim Lienhard prefere examinar o que essa diferença traz em suas trajetórias artísticas. O procedimento funciona como uma ideologia de discriminação positiva, tão em voga nas democracias europeias: ao invés de fingir que não está prestando atenção à diferença – algo que muitos pais ensinam às crianças, como sinal de respeito – o diretor observa-as com atenção e distanciamento, para saber como melhor lidar com elas. A discriminação positiva observa a diferença com atenção não para caricaturá-la, e sim compreendê-la.
Contribui muito ao projeto o fato de Antoine e Mourad serem sujeitos ativos do filme, com voz própria e uma surpreendente lucidez sobre suas condições físicas e psicológicas. “As pessoas adoram ficar perto de mim, porque elas se sentem belas ao lado de um homem feio”, diz Antoine. “As pessoas sempre olharam para mim, a vida inteira. Não posso fingir ser normal, não dá. Por isso decidi usar meu corpo a meu favor. Eu sou uma escultura”, diz Mourad. Assim como os entrevistados, o cineasta evita as cenas dos bastidores (nada sobre a vida amorosa, pouca informação sobre a família) para se concentrar no essencial: as performances dos dois.
Por fim, One Zero One – The Story of Cibersissy e BayBjane não mostra a trajetória politicamente correta de “dois deficientes que superaram os obstáculos e se integraram socialmente”, e sim de dois deficientes que decidiram usar suas deficiências como expressão artística e identitária. Esta também é uma forma de viver, e celebrar, a diferença.
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