Ao colocar sua câmera nas casas noturnas e festas gays de São Paulo, o cineasta Lufe Steffen adota um olhar de sociólogo. Ele tenta compreender porque gays e lésbicas saem à noite, que roupas usam, que expressões utilizam, quanto gastam, o que esperam do amor, do sexo, e mesmo da política e religião. O filme disseca o comportamento dessas pessoas como se tentasse compreender o funcionamento de ratos de laboratório.
As dezenas de impressões pessoais representam os mais variados grupos de moradores gays de São Paulo: menores de idade, jovens adultos, pessoas de mais de 60 anos, homens, mulheres, travestis, transexuais, drag queens, DJs, donos de bares e discotecas. Todos são ouvidos com o mesmo respeito. Preocupado com a amplitude e imparcialidade de seu estudo de caso, o diretor concede a todas as casas noturnas um tempo equivalente, sem poder ser acusado de favorecer uma ou outra.
O resultado é o retrato de um tempo de incertezas. A música das festas ainda copia e recicla os anos 1980; vários rapazes gays sonham com um relacionamento sério, mas acham que todos os outros só querem sexo; alguns afirmam que se vestem com um estilo único, mas são idênticos aos colegas ao lado, que raciocinam da mesma maneira. O ato de sair à noite funciona como escapismo, e por isso mesmo é algo pouco raciocinado. Assim, o documentário desperta interesse por levar um olhar lógico a um prazer irrefletido.
No final, sem julgamentos nem homenagens, A Volta da Pauliceia Desvairada atribui um olhar muito interessado e interessante à sua época. Os letreiros iniciais já avisam que a cena gay paulistana muda rapidamente, portanto o filme deve ser compreendido apenas como uma representação de sua época. É esta a consciência e qualidade do documentário de Lufe Steffen: congelar em imagens um período de mutação, um tempo fugidio e incerto.
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