A Bela Que Dorme tenta combinar estilos de cinema muito diferentes. O primeiro deles é a biografia documental: para contar o caso polêmico de Eluana Englaro, jovem italiana que ficou em coma vegetativo durante 17 anos até ter seus aparelhos desligados, o filme decide se colar aos fatos históricos, mantendo o nome real da garota e reproduzindo informações verídicas. Ao mesmo tempo, esta é uma obra de ficção, com personagens criados no intuito de relatar pontos de vista diferentes sobre a morte voluntária – seja ela a eutanásia, o suicídio ou o suicídio assistido.
Afastando-se ainda mais da realidade, A Bela Que Dorme começa a entrelaçar essas histórias de maneira improvável: o senador esconde em seu passado um ato de eutanásia, a garota religiosa presenciou a eutanásia da própria mãe, e esta mesma jovem, quando está tomando café em um bar, é atacada por um garoto descontrolado, pró-eutanásia. Quem vem ajudá-la (adivinha?) é um belo rapaz de esquerda, aberto a novas ideias. Os dois apaixonam-se à primeira vista. A sucessão de coincidências cria um tom de fábula, sustentado pelas cores sombrias da fotografia, pelos planos de pés suspensos no ar, fumaças cobrindo cômodos inteiros ou ainda projeções de passeatas sobre os rostos dos personagens.
Transita-se entre o sonho e a realidade, entre o barroco e o naturalista, e principalmente entre a noção de acaso (a morte pode chegar a qualquer um, a qualquer hora) e a noção de destino preconcebido (todos esses personagens se cruzam durante poucos dias, nos momentos finais da vida de Eluana). Por sua indefinição, é difícil julgar o sucesso ou fracasso deste projeto. A Bela Que Dorme tem uma beleza plástica invejável, que pode ser considerada adequada, caso o filme seja visto como uma obra poética, ou excessiva, para quem espera um relato fatual da história de Eluana. De qualquer modo, mesmo essas belezas tendem ao esvaziamento quando começam a se repetir entre os episódios: são muitos lençóis ao vento, dezenas de portas abrindo e fechando, dezenas de personagens observando a si próprios no espelho.
Deste modo, a história evita os julgamentos, preferindo a observação. Os atores, de maneira geral, atribuem bastante humanismo aos tipos que interpretam (Toni Servillo e Alba Rohrwacher são excelentes), mas não conseguem superar a posição neutra do diretor. Bellocchio tem muito a mostrar, mas parece não saber exatamente o que dizer sobre o seu tema. Afinal, pode-se fazer um belo documentário, um belo drama ou uma bela fábula surrealista sobre a eutanásia, mas os três projetos não parecem caber em um mesmo filme.
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