sábado, 10 de agosto de 2013

A Cidade é uma Só?

"A cidade é uma só?" é bem mais do que o título deste bom documentário dirigido por Adirley Queirós. É um questionamento que sintetiza o longa e vai de encontro a uma jingle divulgada no início dos anos 70 em Brasília. 

Poster - FILM : 202665Na época, ao verificar a formação de barracos nos arredores da cidade, o governo decidiu por remover tais moradores e realocá-los nas conhecidas cidades satélites. O filme foca sua atenção na Ceilândia, seguindo cinco personagens principais, que vivem no local marcado pela desigualdade e pela especulação imobiliária.

Alguns deles ainda sonham em receber uma indenização pelo deslocamento da década de 70, mas a maioria tenta levar sua vida normalmente. Eles foram tirados de Brasília por causa de loteamentos ilegais, mas a realidade é que eles nunca passaram a ser legais depois disso, afinal passaram a viver em habitações perpetuamente provisórias e numa realidade de muita desigualdade.

A Cidade é uma Só? começa mostrando o plano piloto da Capital Federal e passa seus 73 minutos reforçando o paradoxo que é a cidade responsável por tomar conta do Brasil não conseguir enxergar à sua volta. O diretor Adirley Queirós ainda consegue oferecer discursos políticos tanto através de suas imagens quanto através de seus personagens.

Temos personagens que vivem de comprar e vender lotes e outros que sonham em mudar para Brasília. O mais interessante, no entanto, é Dildu, um político independente que decide se candidatar a deputado distrital, contando com um ex-rapper como marqueteiro. Além de momentos divertidos por natureza, a campanha de Dildu gera uma análise muito interessante sobre a forma de financiar campanha na atualidade.

O longa mostra o quão cruel é a competição política entre um cara comum e uma pessoa com todo um partido por trás. Isso está presente na tela de forma muito elegante e, até mesmo, triste. A cena em que vemos Dildu batendo de cara com uma mega convenção de outro candidato é desoladora.

Com um final em aberto, que representa claramente, a situação dos moradores da Ceilândia, A Cidade é uma Só?é um documentário muito interessante e que atinge bem seus objetivos, além de informar para quem não está tão próximo daquela realidade o que acontece a alguns quilômetros da capital.

A bela que dorme

A Bela Que Dorme tenta combinar estilos de cinema muito diferentes. O primeiro deles é a biografia documental: para contar o caso polêmico de Eluana Englaro, jovem italiana que ficou em coma vegetativo durante 17 anos até ter seus aparelhos desligados, o filme decide se colar aos fatos históricos, mantendo o nome real da garota e reproduzindo informações verídicas. Ao mesmo tempo, esta é uma obra de ficção, com personagens criados no intuito de relatar pontos de vista diferentes sobre a morte voluntária – seja ela a eutanásia, o suicídio ou o suicídio assistido.

A Bela que Dorme - FotoPor esta razão, só aparecem em tela pessoas em crise com o tema: um senador liberal (Toni Servillo) é forçado pelo partido a votar contra a eutanásia, a filha dele, uma garota católica (Alba Rohrwacher), luta contra a morte assistida, uma mulher viciada em drogas (Maya Sansa) tenta cometer suicídio, uma mãe religiosa (Isabelle Huppert) espera que um milagre tire sua filha adolescente do coma. Com esta estrutura, porém, o filme abandona qualquer pretensão de realidade. Ao invés de registrar um painel representativo da sociedade, a câmera está interessada em ouvir unicamente sujeitos envolvidos no caso – como faria, por exemplo, um repórter de telejornal.

Afastando-se ainda mais da realidade, A Bela Que Dorme começa a entrelaçar essas histórias de maneira improvável: o senador esconde em seu passado um ato de eutanásia, a garota religiosa presenciou a eutanásia da própria mãe, e esta mesma jovem, quando está tomando café em um bar, é atacada por um garoto descontrolado, pró-eutanásia. Quem vem ajudá-la (adivinha?) é um belo rapaz de esquerda, aberto a novas ideias. Os dois apaixonam-se à primeira vista. A sucessão de coincidências cria um tom de fábula, sustentado pelas cores sombrias da fotografia, pelos planos de pés suspensos no ar, fumaças cobrindo cômodos inteiros ou ainda projeções de passeatas sobre os rostos dos personagens.

Transita-se entre o sonho e a realidade, entre o barroco e o naturalista, e principalmente entre a noção de acaso (a morte pode chegar a qualquer um, a qualquer hora) e a noção de destino preconcebido (todos esses personagens se cruzam durante poucos dias, nos momentos finais da vida de Eluana). Por sua indefinição, é difícil julgar o sucesso ou fracasso deste projeto. A Bela Que Dorme tem uma beleza plástica invejável, que pode ser considerada adequada, caso o filme seja visto como uma obra poética, ou excessiva, para quem espera um relato fatual da história de Eluana. De qualquer modo, mesmo essas belezas tendem ao esvaziamento quando começam a se repetir entre os episódios: são muitos lençóis ao vento, dezenas de portas abrindo e fechando, dezenas de personagens observando a si próprios no espelho.

A Bela que Dorme - FotoPode-se admirar o fato que, diante de um tema tão complexo, o diretor Marco Bellocchio não tenha defendido nenhuma causa. Mas também, pudera: esta história não gira em torno de diferentes posturas sobre a eutanásia, e sim em torno de diferentes personagens passando por um momento extremo de suas vidas. Pouco importa o que cada um deles pensa sobre o caso Eluana, já que estão excessivamente imersos no tema, representando apenas a si mesmos. Existe emoção demais: todos os personagens choram, gritam, debatem-se, e por isso são respeitados pela mesma razão que se respeita uma pessoa em período de luto – as dores ainda estão vivas demais para se propor um olhar calmo e lógico.

Deste modo, a história evita os julgamentos, preferindo a observação. Os atores, de maneira geral, atribuem bastante humanismo aos tipos que interpretam (Toni Servillo e Alba Rohrwacher são excelentes), mas não conseguem superar a posição neutra do diretor. Bellocchio tem muito a mostrar, mas parece não saber exatamente o que dizer sobre o seu tema. Afinal, pode-se fazer um belo documentário, um belo drama ou uma bela fábula surrealista sobre a eutanásia, mas os três projetos não parecem caber em um mesmo filme.

Juan dos mortos

Ao se pensar no cinema realizado em Cuba, é mais fácil se lembrar de produções marcantes nos anos 60 e 70, como Memórias do Subdesenvolvimento e Lucia, do que em longas recentes. As dificuldades econômicas enfrentadas pelo país reduziram drasticamente as produções realizadas por lá, que ainda assim possui uma conceituada faculdade de cinema. São poucos os filmes produzidos em Cuba e menores ainda os que chegam ao Brasil. Ainda assim, em 2011, foi realizado um filme em ganhou destaque em festivais por todo mundo, incluindo o Festival do Rio. Trata-se de Juan dos Mortos.

Foto - FILM - Juan de los Muertos : 182105Cerca de dois anos depois, o longa chega aos cinemas brasileiros e merece ser conferido pelos fãs de filmes de zumbi. A coprodução Cuba-Espanha gira em torno de um grupo de estranhos amigos que têm que lidar com o fato de todos a sua volta terem se tornado zumbis, embora a mídia ainda os trate como dissidentes financiados pelo governo dos Estados Unidos.

A ideia é ótima e a execução não deixa a peteca cair. Juan é o líder do grupo, que ainda arruma uma forma de ganhar dinheiro diante da tragédia. "Matamos seus entes queridos", anunciam.

Como muitas grandes comédias, o Juan de los Muertos (no original) investe no absurdo para produzir críticas não só contra o sistema de governo do país, mas também contra os Estados Unidos e o cinema hollywoodiano. Não é coincidência que o primeiro zumbi visto no filme seja um prisioneiro de Guantánamo e nem que um cowboy (ou quase isso) surja em cena para morrer da forma mais idiota possível.

Foto - FILM - Juan de los Muertos : 182105Escrito e dirigido pelo argentino Alejandro Brugués, o filme valoriza o caráter de sobrevivente do povo cubano, que supera muitas dificuldades. Tem referências claras aTodo Mundo Quase Morto, usando armas estilizadas como remos, tchaco e taco de basebol como instrumentos para matar zumbis. Mas não se trata de um longa que se esgota na referência, brincando ainda com filmes de vampiro e com O Exterminador do Futuro("Venha comigo se quiser viver").

O filme não se julga esperto de mais e nem perde tempo em debates políticos, mas não deixa de dar suas indiretas, algumas delas bem óbvias, por sinal. As ruas de Havana viram cenário de filme de horror, com muito sangue e corpos pelo chão. Tal ambiente contrasta com painéis e pinturas que destacam frases como "pátria ou morte", "revolução e morte" e "Havana livre". Brinca com os russos, através de crítica aos carros Ladas, e com os americanos, com o protagonista dizendo que só vai para Miami se não tiver mais jeito. Para ele, só algo pior que uma revolução zumbi justificaria entrar num bote para a América.

Estrelado por Alexis Díaz de VillegasJorge MolinaAndrea Duro e Andros PerugorríaJuan dos Mortos é inteligente, divertido e muito bem feito. É claro que possui um visual trash e cenas pra lá de bizarras, mas tudo bem inserido em produções do gênero. No final, é difícil tirar o sorriso do rosto, reforçado por uma versão roqueira de "My Way", clássico da música imortalizado por Frank Sinatra.

Chamada a cobrar

No drama argentino A Mulher Sem Cabeça, uma mãe de classe média-alta se descuidava ao volante e acabava atropelando algo, que poderia ser uma pessoa, um animal ou algum objeto na pista. Sem ter coragem de voltar ao local do incidente, ela passava seus dias remoendo a possibilidade de ter cometido um assassinato. Clarinha, em Chamada a Cobrar, precisa de menos do que isso para perder a cabeça: basta uma ligação anônima, sugerindo que sua filha foi sequestrada, para que ela pegue o carro e saia dirigindo durante doze horas, seguindo as ordens mais absurdas.

Foto - FILM : 213756Desde o início, está claro que a ligação representa um falso sequestro: os bandidos mudam de ideia sobre as instruções, nunca fornecem provas de terem a filha de Clarinha com eles, tampouco pedem resgate. Mas de fato, eles nem precisariam de tanto esforço: em momento algum Clarinha demonstra um mínimo de racionalidade. Ela não tenta ligar para a filha, nem para a polícia, nem conversar com quem quer que seja pelo caminho. Esta mulher de meia-idade age apenas com a emoção, acreditando em tudo que ouve.

Isso é possível porque a protagonista é descrita como uma pessoa rica e ingênua. Com a duração enxutíssima de 72 minutos (o longa foi expandido a partir de um curta-metragem), a apresentação de Clarinha resume-se ao mínimo necessário: ela mora em uma casa luxuosa, tem jardineiros, toma café da manhã com castiçais à mesa e pendura um terço no vidro retrovisor do carro. A câmera insiste em focar neste terço, enquanto Clarinha grita “Pelo amor de Deus!” a cada trinta segundos, indicando que o roteiro provavelmente associa a credulidade no caso da fraude à credulidade religiosa.

De qualquer modo, esta personagem é de uma imbecilidade atroz. Quando a voz do outro lado do telefone faz alguma referência à filha supostamente sequestrada, a mãe grita: “Dá uma maçã para ela, por favor! Ela gosta de maçã!”, como faria a um animal de estimação. A representação grotesca da riqueza (Clarinha tem um vibrador dourado em casa) completa-se com a representação grotesca da pobreza. O bandido corresponde à ideia mais estereotipada do favelado agressivo, enquanto a primeira imagem da cadeia recorre ao fetichismo dos filmes criminais, com a câmera observando os braços através das grades e a fumaça de um cigarro saindo da cela.

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Assim se configura Chamada a Cobrar: um embate entre a estupidez dos ricos e a astúcia dos pobres. O grupo rico é representado por mulheres histéricas (o momento com as três irmãs juntas beira o insuportável), o grupo pobre é representado por homens perversos, fazendo um teatrinho da pior qualidade. Para ajudar no festival de caricaturas, a mulher rica vem de São Paulo, enquanto o favelado representa o Rio de Janeiro. Planos aéreos servem para opor as duas cidades - e adivinha? O lado carioca é mostrado com crianças pobres e praia, o lado paulista é mostrado como um mar de arranha-céus.

De certo modo, o elemento mais grave em Chamada a Cobrar é o fato de a diretora Anna Muylaert levar a sério a sua personagem, acreditando que a situação poderia realmente se desenvolver dessa maneira. A cineasta é conhecida por incluir elementos surrealistas em suas obras (vide o cavalo de Durval Discos), mas desta vez o surrealismo nunca é assumido como tal. Talvez cenas com bichos e pelúcia e armas de brinquedo pudessem levar o filme para a inverossimilhança assumida, mas o roteiro acredita que está realizando uma mistura realista entre drama e suspense. Assim, Muylaert usa câmeras tremidas e trilha sonora, como se estivesse gravando um filme policial hollywoodiano.

Desta vez, infelizmente, ela não tem o distanciamento crítico que tinha nos bons Durval Discos e É Proibido Fumar.Bete Dorgam ainda tenta conferir alguma credibilidade à personagem, mas a história permite apenas que ela atue na máxima potência, sempre em desespero. A história ainda ameaça enveredar pela crítica social, com discussões entre bandido e vítima sobre salários e direitos dos pobres, condições hospitalares e outras mazelas da desigualdade social. Mas a possibilidade de um retrato da luta de classes transforma-se em humor involuntário quando Clarinha passa a chamar o suposto agressor de sua filha de “querido”, “meu filho” (seria o instinto materno aflorado?), acreditando até em uma simulação tosca de sua filha chorando ao telefone. Talvez o roteiro quisesse fazer de Clarinha um símbolo da classe A, mas o perfil patológico e tragicômico dessa mulher dificilmente representaria qualquer outra pessoa.

Anna Muylaert sempre desenvolveu sua carreira com a mistura de gêneros, entre comédia, suspense e drama. Desta vez, no entanto, ela leva às telas um roteiro precário, além de contar com uma produção muito fraca, perceptível pela caracterização risível do delegado, ou pelos recursos simplórios da direção de arte ao revestir um orelhão.Chamada a Cobrar acaba sendo um filme amador, tão incoerente e ingênuo quanto Clarinha.

Renoir

Existe uma curiosa tendência no cinema atual que tem investido não propriamente em cinebiografias, mas em momentos específicos da vida de celebridades. É o caso de Sete Dias com Marilyn (período em que a atriz atuava em O Príncipe Encantado), Hitchcock (bastidores de Psicose), Lincoln (a negociação em torno do fim da escravidão nos Estados Unidos) e o telefilme A Garota (o relacionamento de Alfred Hitchcock com a atriz Tippi Hedren). O drama francês Renoir segue nesta linha ao não focar nem a vida do pintor Pierre-Auguste Renoir nem a do cineasta Jean Renoir, seu filho. É o elo entre os dois, com o pintor já consagrado e o nascimento do cineasta, o grande tema deste filme que explora muito os diálogos e o lado técnico para mostrar um pouco de quem foi cada um deles.

Foto - FILM - Renoir : 203955Logo de início o filme se destaca pela fotografia, nitidamente pensada de forma a ressaltar na telona o estilo de pintura do próprio Renoir. O uso de cores vivas e alegres, refletidas em muitas paisagens naturais onde seria possível brincar com as variações de luminosidade, tem dupla função: ao mesmo tempo que produz um efeito belíssimo, oferece ao espectador dicas de como era o mundo visto pelo pintor. Lá pelas tantas, numa conversa com o filho, surge outra dica sobre seu estilo quando o próprio Renoir diz que se recusa a usar o preto em seus quadros, já que “prefere ver o mundo agradável e alegre”. Assim é o estilo impressionista, onde a suavidade reina e provoca uma sensação de bem estar ao espectador.

Já pelo lado do cineasta, é interessante perceber a transição entre o jovem entusiasta em defender a pátria na Primeira Guerra Mundial naquele que viria a ser um dos maiores diretores europeus de todos os tempos, responsável por clássicos como A Grande Ilusão e A Regra do Jogo. Entretanto, não espere ver os bastidores de quaisquer destas produções ou até mesmo um trabalho intenso de Jean Renoir no meio cinematográfico. Renoir, o filme, busca o nascimento do interesse pelo cinema, passando pela vida ligada às artes devido ao convívio com o próprio pai. Este relacionamento, por sinal, é outro lado bastante interessante do filme. Por mais que Pierre-Auguste (Michel Bouquet) e Jean (Vincent Rottiers) não sejam muito próximos, existe um sentimento entre eles que se manifesta muito mais através do respeito e da troca reveladora de olhares, especialmente após Jean conhecer a ambiciosa Andrée (Christa Theret). É ela, por sinal, o fio da meada do lado dramatúrgico do filme, servindo de elo de ligação entre o trabalho do pai e o interesse artístico do filho.

Foto - FILM - Renoir : 203955Valorizando bem mais o lado estético do que propriamente uma história a ser contada, Renoir é um filme para ser apreciado sob o ponto de vista artístico. Quem conhece um pouco do trabalho do pintor terá a chance de reconhecer em cena diversos elementos de sua obra, sejam citações e representações de algumas de suas pinturas mais conhecidas ou até brincadeiras relacionadas ao seu estilo, como as feitas por Jean e Andrée sobre o modo como eles eram retratados nos quadros. Para quem nada sabe sobre Renoir, seja o pai ou o filho, é uma boa oportunidade de conhecer um pouco melhor as características destes dois gênios da arte. Bom filme, que conta com um elenco coeso mas que tem como grande destaque o trabalho do diretor Gilles Bourdos, pelo cuidado na transposição do estilo de Renoir, o pintor, para ilustrar o filme.

o cavaleiro solitario

O Cavaleiro Solitário é daqueles filmes cuidadosamente formatados para virar um sucesso de público. Tem nos bastidores Jerry Bruckheimer, veterano do cinema hollywoodiano de ação, na direção Gore Verbinski, o homem por trás dos três primeiros filmes da série Piratas do Caribe, e ainda Johnny Depp, astro com uma longa lista de fãs que, ainda por cima, tem neste filme a chance de criar mais um personagem pitoresco para sua extensa galeria. Diante desta fórmula, o que poderia dar errado? Bastante coisa, a começar por um problema sério que é a síndrome de Piratas do Caribe.

Foto - FILM - Lone Ranger : 135256A bem da verdade, o grande sonho de todos os citados era que O Cavaleiro Solitário se tornasse uma variação do sucesso maior da carreira de Johnny Depp. Além dos envolvidos, o roteiro repleto de reviravoltas que não vão a lugar algum e o ar infantilizado da história como um todo são bastante semelhantes às aventuras de Jack Sparrow. Só que há uma diferença crucial: o índio Tonto está longe de ter o mesmo apelo do capitão do navio Pérola Negra. Por mais que novamente demonstre a criatividade de Depp na elaboração de um personagem singular, especialmente devido à ave quase sempre presente sobre sua cabeça, Tonto é um personagem limitado pelos trejeitos faciais do próprio astro, os mesmos que usou e abusou na pele de Sparrow. Ou seja, por mais que o visual seja interessante, Tonto aparenta ser um personagem repetido, sem algo novo que possa cativar e surpreender o espectador.

Outro problema sério é em relação ao roteiro, que leva um tempo excessivo na apresentação dos personagens. Com 149 minutos de duração, perde-se tempo demais explicando as origens de Tonto e de John Reid (Armie Hammer, numa atuação parecida com a de Espelho, Espelho Meu, misturando aventura com um ar de paródia) e nas voltas que a dupla recém-formada dá. Ora estão juntos, ora separados, juntos de novo, separados mais uma vez... Este vaivém repleto de piadinhas de efeito cansa, ainda mais devido às poucas cenas de ação presentes no filme. Além disto, há personagens que poderiam ser eliminados sem grande prejuízo para a história como um todo, como os deHelena Bonham Carter e Barry Pepper.

Foto - FILM : 135256Apesar de tantos problemas, O Cavaleiro Solitário possui algumas boas soluções que merecem atenção. Uma delas é o método utilizado para que Tonto ganhasse mais destaque do que o personagem-título, fazendo com que o filme girasse em torno de suas memórias. A história oral é bem explorada na trama com brincadeiras em torno das falhas de coerência do que acontece, relacionando-as à falta de memória do próprio Tonto. O personagem, por sinal, surpreende graças a uma pesada maquiagem, que chega a dificultar o reconhecimento de Johnny Depp. Entretanto, o único momento em que o filme consegue realmente empolgar é já perto do final, quando entra em cena a clássica “William Tell Overture: Finale”, música-tema da série de TV The Lone Ranger, na qual o filme é baseado. É quando O Cavaleiro Solitário assume de vez o lado absurdo das cenas de ação, apresentadas numa sequência bastante divertida e concluída com uma ótima piada de Tonto envolvendo uma marca registrada da série.

Analisando como um todo, O Cavaleiro Solitário é um filme bem problemático mas que possui algumas qualidades relevantes. Está longe de ser o melhor dos trabalhos de Bruckheimer, Verbinski e Depp, mas traz momentos que conseguem capturar a atenção do espectador. Entretanto, caso fosse mais escancarado para a aventura, sem perder tanto tempo com personagens desinteressantes e piadas infantis, seria bem mais interessante.

Augustine

A TV americana é pródiga em séries baseadas na vivência em hospitais, casos de Plantão Médico,Grey’s Anatomy e House, o que fez com que, de certa forma, o público em geral conhecesse um pouco melhor o cotidiano dos profissionais que lá trabalham. Pode-se dizer que Augustine, drama francês dirigido por Alice Winocour, tenha um pouco de cada uma destas séries, especialmente de House. O personagem eternizado por Hugh Laurie é bastante parecido com o Jean-Martin Charcot interpretado por Vincent Lindon, nem tanto pelo sarcasmo mas muito pela dedicação obsessiva à resolução de uma doença. Só que há uma diferença importante: se House tinha à sua disposição toda a maquinaria que em muito ajuda a detecção de doenças nos dias atuais, Charcot depende do velho método de observação tão utilizado pelos médicos e estudiosos durante o século XIX.

Foto - FILM - Augustine : 189411Apesar de Charcot ser um vértice importante da história, a trama na verdade gira em torno da Augustine do título. Aos 19 anos, trabalhando para a elite francesa, ela tem uma crise impressionante na qual começa a se debater sem ter controle algum sobre o próprio corpo. Levada ao hospital, ela acaba internada e encaminhada para ser tratada por Charcot. Começa então a rotina de testes e experiências, na qual o médico tenta descobrir o que a paciente tem para não apenas curá-la, mas também provar suas próprias teorias médicas sobre a doença que a acomete.

Apesar de todo o processo da investigação médica ser bastante interessante, especialmente em contraponto às técnicas utilizadas atualmente, cabe à relação nascente entre Charcot e Augustine o grande mérito do filme. Ele, sempre sisudo e muitas vezes antipático, acaba sendo a única esperança para Augustine em um mundo de angústia e sofrimento, enquanto que ela pode ser a porta de entrada dele para o tão almejado reconhecimento no meio científico. Outra abordagem interessante trazida pelo filme é o modo como as mulheres do hospital são tratadas pelos médicos, como “espécimes”. Retrato do meio científico da época que mostra ainda a inexistência do lado humano, sem falar na própria condição social da mulher naquele período.

Como um todo, Augustine é um bom filme que tem como maior destaque a bela caracterização de época trazida pela diretora Alice Winocour e as convincentes atuações dos protagonistas Soko e Vincent Lindon, cada um expressando bem as nuances de seu personagem a cada momento da história. Pela relação entre médico e paciente, e as armadilhas que ela pode trazer, o filme lembra um pouco Um Método Perigoso, dirigido por David Cronenberg e lançado em 2011.