Kizuki amava Naoko que amava Toru que amava Midori. Toru também amou Reiko, amiga de Naoko, e flertou com Hatsumi, namorada de Nagasawa, que não amava ninguém. Kizuki se matou, Naoko enlouqueceu, Toru caiu em depressão, Midori se afastou quanto perdeu o pai, Reiko partiu, Nagasawa sumiu e Hatsumi cortou os pulsos. Seria possível adaptar a Quadrilha de Carlos Drummond de Andrade em versão nipônica para descrever esse grande melodrama, cheio de personagens, que é Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood.
Esse desfile de lugares e épocas é completado por uma direção fluida do cineasta Tran Anh Hung, que utiliza osteadycam (a câmera móvel, acompanhando os personagens) durante o filme inteiro, seguindo cada caminhada, cada gesto com a mão. Mesmo nos raros momentos em que Toru ou Naoko estão apenas sentados, o olhar do diretor percorre as linhas da madeira no corredor, os vincos de um banco de couro. É preciso que tudo esteja sempre em movimento, ao limite da vertigem. O espectador assiste ao filme como se estivesse em um museu ou exposição, deslizando o olhar de uma pintura à outra, prestando a mesma atenção a cada uma delas. Essa escolha não torna o filme veloz, apenas lânguido, pesado, longo – banhado pela canção título que tem pouca função narrativa para além de sua contribuição ao clima geral da obra.
O filme foi repudiado ou apreciado nos festivais de cinema praticamente pela mesma razão: as imagens ultra estetizadas, os enquadramentos belos, com raios de luz banhando o rosto dos personagens, ou a neve começando a cair no momento exato de alguma revelação triste. É uma obra bela, até demais, levando a um questionamento sobre o verdadeiro protagonista dessa história, que parece ser menos as dezenas de personagens do que a própria estética. Para quem gosta de filmes de arte bem produzidos, de aparência chique, letárgica e enfumaçada (como as obras de Wong Kar-Wai, por exemplo), é um prato cheio.
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